quarta-feira, 19 de março de 2014

ENTREVISTA - PATRÍCIA LUISA SANTANA E VERÔNICA BATISTA (10/3/2014) CARAS DO BRASIL




ENTREVISTA - PATRÍCIA LUISA SANTANA E VERÔNICA BATISTA (10/3/2014)
 
"O Caras do Brasil valoriza a comunidade e a história por trás de cada produto"
Patrícia Luisa Santana e Verônica Batista são, respectivamente, Coordenadora e Analista do Programa Caras do Brasil.
De onde vem e como surgiu a sua relação com o artesanato? Como ocorreu a sua inserção no Programa Caras do Brasil?
Patrícia Luísa Santana: Sempre gostei de artesanato – é algo que vem da minha família - mas nunca imaginei que trabalharia nessa área. A minha família é mineira, bem tradicional, que sempre realizou a produção de algumas peças - como cestas, por exemplo – com materiais que eles colhiam na mata. Então, o artesanato sempre foi algo presente na minha vida.
Há alguns anos eu ingressei no GPA atuando no setor de varejo. Entrei para trabalhar numa loja do Extra. Depois disso, fiz uma inscrição para participar de um processo seletivo interno do Instituto GPA. Com isso, fui parar no Instituto trabalhando com programas educacionais. Logo após isso, há cinco anos, o Instituto recebeu o Programa Caras do Brasil. Inicialmente, o Caras do Brasil nasceu numa área comercial, mas depois ele foi repassado para a área de responsabilidade social do Grupo. Dessa forma, devido a essa transição de áreas, o Instituto precisava de alguém que tivesse um olhar social, diferenciado.
Sou formada em Serviço Social, fiz uma especialização em Psicopedagogia e recentemente um MBA em Marketing. Assim, aproveitei o meu interesse pessoal pelo artesanato e por questões sociais para conhecer e participar do programa. Foi assim que eu tive a oportunidade de ingressar no Caras do Brasil, há cinco anos.
E você, Verônica?
Verônica Batista: Não tinha tanta afinidade pessoal com essa área, ao contrário da Patrícia, mas sempre me interessei muito por questões sociais. Sempre fiz trabalhos voluntários, enfim. Da mesma forma que a Patrícia, fiz um processo seletivo interno (eu já trabalhava no GPA em outro setor) para a área de responsabilidade social e fui aprovada. Assim, trabalho com a Pati há dois anos e meio. Gosto muito do que a gente faz e desenvolvi uma afinidade bem grande com a atividade artesanal.

De forma mais específica, o que é e como surgiu o Programa Caras do Brasil? Como funciona a metodologia utilizada pelo projeto?
Patrícia Luísa Santana: O Caras do Brasil foi lançado em 2002 e é um programa que surgiu a partir de uma demanda da presidência do GPA. O Pão de Açúcar é uma empresa que trabalha com a comercialização no grande varejo, mas já naquela época recebíamos pedidos de pequenos produtores que queriam comercializar. Entretanto, a capacidade de produção era pequena. Aqueles grupos ainda não estavam preparados para ingressar no grande varejo. Foi aí que surgiu a necessidade do GPA ter um programa que também abrisse as portas da comercialização para esses grupos.
Hoje em dia nós temos um grande gargalo no mundo do artesanato: não existem muitas portas de saída para os produtos. Existem muitas organizações que fazem capacitação de grupos, que desenvolvem produtos, mas, às vezes, faltam lugares para vender esses objetos. Nesse sentido, o GPA lançou o Caras do Brasil para abrir essa canal de comercialização para o pequeno produtor artesanal brasileiro - só trabalhamos com produtores nacionais – incentivando o comércio ético e solidário, a geração de renda, o respeito ao meio ambiente e a inclusão social. Participam do programa cooperativas, associações ou o próprio artesão individual. Hoje nós trabalhamos com microempreendedores individuais também (MEI), que podem se tornar fornecedores desde que realmente sejam pequenos produtores.
Nas lojas nós temos a linha de artesanato utilitário, que são objetos que ajudam a dona de casa no seu dia a dia. Eu não tenho simplesmente um produto que é de decoração, porque quem vai ao supermercado, normalmente, está indo lá para comprar o seu alimento. Dessa forma, colocamos nas gôndolas do programa algumas peças que terão utilidade no dia a dia das pessoas. E nós também comercializamos alimentos bem regionais, como o mel dos índios do Xingu - que nem sempre tem na loja, porque a produção é limitada - a castanha de Baru que vem do Cerrado e a geleia de maracujá da Caatinga, produzida por uma cooperativa.

O que um artesão ou uma comunidade deve fazer para integrar o Programa Caras do Brasil?
Patrícia Luísa Santana: O artesão ou comunidade precisa ter um produto que seja interessante e que apresente uma boa qualidade. Além disso, precisamos conseguir colocar o produto no mercado: é diferente trabalhar o artesanato dentro do supermercado, dentro do Caras do Brasil, do que numa loja especializada no ramo – no primeiro, as pessoas vão para comprar alimentos; no segundo, as pessoas se dirigem para, realmente, comprar um item decorativo. Dessa forma, o pequeno produtor precisa apresentar uma peça que seja interessante para o consumidor.
Regularmente nós realizamos avaliações também. Contratamos uma empresa que realiza visitas nos grupos, mas nós também participamos desses encontros. Assim, conhecemos, hoje em dia, quase que 100% dos grupos, pessoalmente. Uns vai a Verônica, outros vou eu. E a cada dois anos nós voltamos nesses grupos para verificar se eles continuam cumprindo os critérios de elegibilidade do produto.
Outro requisito existente é que o pequeno produtor não pode utilizar uma mão de obra escrava. Além disso, ele deve cuidar dos resíduos produzidos na confecção das peças, fazendo um trabalho voltado para o meio ambiente.

E como o artesão pode se inscrever no programa?
Patrícia Luísa Santana: Hoje, o principal canal de entrada é o site. O artesão entra no espaço “Seja um fornecedor” e preenche uma ficha de inscrição que vem direto para nós. Depois disso, fazemos uma primeira avaliação e já retornamos com um contato, dizendo se o produto é interessante ou não. Sempre damos um retorno. Nesse canal de entrada de fornecedores nós recebemos até mesmo produtos que nem são comercializados pelo programa, mas mesmo assim as pessoas se inscrevem porque elas veem que é uma oportunidade.
Também aceitamos indicações, mas sempre recomendamos que o artesão acesse o site e preencha a ficha. Muitas pessoas que frequentam as lojas do Pão de Açúcar veem os produtos expostos e falam “ah, eu conheço alguém que produz alguma coisa parecida. Qual é o contato?”, aí os funcionários do mercado passam nosso e-mail. Também participamos de rodadas de negócios que o SEBRAE realiza Brasil a fora, onde temos a oportunidade de conhecer a peça, o grupo e como ocorre a produção.

Qual é o número de artesãos que fazem parte do programa?
Patrícia Luísa Santana: Temos cerca de 60 fornecedores, sendo que cada artesão ou cada cooperativa é contabilizada como 1 fornecedor. Existem cooperativas que têm mais de 30 famílias envolvidas, por exemplo.

Atualmente vocês realizam a comercialização de produtos do Caras do Brasil pela internet. Quando esse processo começou? Quais foram os impactos trazidos com esse novo canal de venda?
Patrícia Luísa Santana: Pela internet nós temos cerca de dezoito produtos sendo comercializados no delivery do Pão de Açúcar. Começamos esse processo no ano passado, para fazer um primeiro teste, então ainda estamos numa fase avaliação. O público online é, em certa medida, diferenciado. Nós, como Caras do Brasil, ainda não conhecemos muito bem esse público, mas estamos fazendo algumas avaliações porque o intuito é que esse canal de venda cresça para disponibilizarmos um maior número de produtos para os consumidores. Colocamos também 10 itens no delivery do Extra.
No espaço físico, o Caras do Brasil está só na bandeira Pão de Açúcar, presente em 107 lojas nas cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Brasília, Fortaleza, Piauí e Recife. O comércio online por meio do delivery está disponível apenas na região de São Paulo.

Em 2003, logo após a sua criação, o Programa Caras do Brasil estava presente em 5 lojas do Pão de Açúcar. Em junho de 2013 o número de lojas participantes já havia subido para 98. No Seminário Objeto Brasileiro e Mercado você mencionou que uma das expectativas para o fim de 2014 era ampliar o programa para todas as lojas do GPA (incluindo Extra, Pontofrio, Casas Bahia, etc). Considerando a diferença existente entre todos esses canais de venda, como essa ampliação pode ser possível? Os produtos comercializados no Ponto Frio e Extra, por exemplo, seriam semelhantes aos que já encontramos hoje no Pão de Açúcar?
Patrícia Luísa Santana: Temos um grande desafio! O nosso maior desejo é que o Caras do Brasil esteja sim presente em todas as lojas do GPA, mas em formatos diferenciados também. As peças que eu tenho hoje na bandeira Pão de Açúcar não serão as mesmas vendidas no Ponto Frio, por exemplo, porque no primeiro o foco é a venda de alimentos, já no segundo o objetivo é a comercialização de eletrodomésticos. Nesse sentido, produtos como abajures e luminárias, por exemplo, poderiam ser vendidos no Ponto Frio ou Casas Bahia, dado que essas peças não cabem no supermercado. Desse modo, temos o desejo de que essa expansão ocorra no futuro.
Para 2014, queremos fortalecer o programa como uma Marca Exclusiva com Foco Social do GPA. Pretendemos atingir também 100% das lojas – hoje estamos em 107 pontos de venda, mas existem 152 lojas do Pão de Açúcar. Assim, há alguns locais onde ainda precisamos chegar. Dessa forma, queremos fortalecer o programa dentro do Pão de Açúcar, fazer os ajustes necessários e depois pensar numa expansão para as outras lojas do grupo.

Vocês acham que os produtos vendidos no Pão de Açúcar também podem ser comercializados no Extra, dado que esses dois supermercados atendem públicos diferentes? 
Patrícia Luísa Santana: Alguns itens poderiam estar presentes nas duas bandeiras, mas não todos. No Extra é possível vender produtos diferentes, já que o espaço físico é muito maior.
Verônica Batista: Isso que eu ia dizer. O que está no Pão de Açúcar cabe no Extra, mas o que está no Extra não caberia no Pão de Açúcar.
Patrícia Luísa Santana: Mas nós temos outro limitador. Se a expansão ocorresse hoje, eu não teria peças suficientes para abastecer todas as lojas porque os fornecedores têm uma capacidade produtiva bem limitada. Assim, com os fornecedores que eu tenho hoje, não é possível crescer muito, até mesmo porque há produtos que não estão em todas as lojas por causa dessa limitação produtiva do artesão ou da comunidade. Precisamos urgente de novos fornecedores!
Além disso, compramos no máximo 70% da produção (60% é o ideal), porque o artesão ou comunidade precisa ter outros clientes também. Ele não deve depender exclusivamente do Pão de Açúcar. Esse é um dos requisitos para participar do programa Caras do Brasil.

Existe algum produto presente em todas as lojas?
Patrícia Luísa Santana: Em relação ao artesanato, os produtos da Serra da Capivara são os únicos que estão presentes em todas as lojas. Em relação aos alimentos, nós temos o mel de Teresópolis que também consegue atender todos os pontos de venda. Na verdade, o alimento tem uma produção mais frequente e a comercialização é mais rápida, então há meios que possibilitam uma produtividade maior. Então, nós temos um plano de crescimento junto com esses produtores.
Entretanto, em relação ao artesanato, como a produção é mais limitada fica mais difícil estar presente em todas as lojas. A Serra da Capivara tem uma capacidade de produção maior porque lá existe uma abundância de matéria-prima e toda uma comunidade é envolvida na produção da cerâmica. É uma região de ceramistas, então conseguimos ter um crescimento.

De acordo com o site de vocês, um dos objetivos do Programa Caras do Brasil é “oferecer aos clientes do GPA produtos sustentáveis, com valores socioambientais agregados à sua utilidade, incentivando a prática do consumo consciente”. Na sua opinião, os resultados obtidos com o programa até agora são reflexos de um público consumidor que se preocupa cada vez mais com um comércio ético, solidário e sustentável? 
Patrícia Luísa Santana: Sim, mas não exclusivamente. Nós temos um público que se identifica com a causa, que conhece o programa e que compra por causa dessas questões. Porém, a grande maioria compra pela oportunidade de compra mesmo. É um produto.  Acreditamos que na medida em que o consumidor entende a proposta do programa e a origem do produto, ele acaba comprando pelos valores que você mencionou, mas ainda a grande maioria compra como opção de presente.
Temos um desafio grande neste ano de 2014, que é melhorar a nossa comunicação com público. Precisamos contar na ponta de gôndola as histórias de cada produto. Hoje em dia, cada peça vem com um tag que identifica quem é o produtor, como é feito aquele produto e como o objeto chega na prateleira do mercado. Entretanto, ainda estamos limitados àquele tag. O cliente vai pegar, vai ler e saber a história, mas só depois que ele estiver manipulando o produto. Então, temos um trabalho grande aí, um desafio nessa área de comunicação. Quando o consumidor reconhece a história do produto e do produtor, ele compra a causa, mas hoje não conseguimos perceber todo esse engajamento por parte do consumidor.
Verônica Batista: No caso do artesanato, o cliente compra por causa da utilidade. E, no caso do alimento, existe certa consciência de comprar alimentos diferenciados, mais naturais, orgânicos e menos industrializados.

No Seminário Objeto Brasileiro e Mercado você chegou a mencionar que o Programa Caras do Brasil busca "contribuir para o desenvolvimento das organizações fornecedoras". Esse objetivo é contemplado? Como vocês avaliam os resultados alcançados?
Patrícia Luísa Santana: Nós fizemos uma visita no ano passado a um grupo produtivo na Serra da Capivara, Piauí, e os resultados foram apresentados no Plurale em revista. Quando casos como esse ocorrem nós conseguimos realmente verificar o que está acontecendo com o programa, se os objetivos estão sendo alcançados ou não. A cada dois anos, realizamos a visita de elegibilidade do programa, conforme eu já havia dito. Nós vamos aos grupos e conversamos com as pessoas, até mesmo para entender o que está acontecendo. E, nessa revista, temos os depoimentos das pessoas dizendo: “Sim, a comunidade melhorou. A gente não tinha uma escola, mas hoje temos porque a gente batalhou. As pessoas saíam daqui e iam embora para os grandes centros, a fim de conseguir uma boa colocação de emprego. Hoje elas permanecem aqui”. Então, conseguimos contribuir com essa questão de manter essas pessoas no local de origem, além de ajudarmos com o desenvolvimento local a partir da comercialização, que gera renda para aquela região.
Assim, mais do que eu ou o Pão de Açúcar falarmos que estamos atendendo essas comunidades, é necessário provar os resultados das nossas ações. Por isso que é um terceiro, uma empresa contratada, que faz essas avaliações a cada dois anos. Entretanto, nada impede que a gente fale com essas comunidades por telefone ou que mantenha um contato frequente por email. Há uns quinze dias mesmo, recebemos um e-mail de um fornecedor, o Fabio, de Carmo Rio Claro, Teares, dizendo que ele conseguiu comprar um terreno aonde ele vai construir um galpão para aumentar a produção. Então, de certa forma, você acaba contribuindo para o desenvolvimento local.

E as vendas acabam sendo impulsionadas também.
Patrícia Luísa Santana: Sim. As pessoas passam a ter um local para vender seus produtos. E é uma compra que nós chamamos de garantida. Após a entrega da mercadoria, em dez dias úteis o pagamento está na conta dele, integral. Não trabalhamos com consignação.

Fora a questão do marketing também... 
Patrícia Luísa Santana: Sim. E para a comunidade é uma chance para prospectar novos clientes também. Dizer que você vende seus produtos para o Pão de Açúcar dá um crédito, não é? Temos algumas dificuldades, é claro. O artesanato é um mundo à parte. Tem partes bem específicas, mas tem coisas que a gente consegue trabalhar já num volume maior.

Outro ponto levantado por você no seminário foram os requisitos obrigatórios para que um objeto possa fazer parte da linha de produtos do programa. Dentre eles, você mencionou: rótulo, etiqueta, código de barras, embalagem, nota fiscal e entrega no Centro de Distribuição. Ao longo das atividades desenvolvidas pelo museu, percebemos que algumas das dificuldades enfrentadas pelas comunidades produtivas se referem exatamente a questões de logística e transporte, emissão de notas fiscais e adequação das embalagens para as necessidades do mercado. Sendo assim, como esses pontos são negociados com as comunidades? As unidades produtoras recebem alguma orientação sobre esses tópicos?
Patrícia Luísa Santana: Negociamos tudo isso com o produtor. A maior dificuldade que tínhamos antes era o código de barras. Nós víamos produtos maravilhosos, mas o artesão ou o grupo não tinha condições de ter um código de barras porque o custo inicial era um pouco alto - cerca de 500 reais, que é um valor considerável. Assim, mesmo que a compra fosse garantida, esse investimento inicial era um pouco difícil para alguns grupos. Hoje nós não temos mais esse problema, porque como o programa está na área de Marcas Exclusivas do GPA, temos uma área que cuida de embalagem e que consegue fornecer o código de barras. Então, não temos mais essa questão como um problema, mas a logística continua sendo um dificultador.

Não só no artesanato.
Patrícia Luísa Santana: Sim, vários setores aqui no Brasil enfrentam problemas com logística. Existem coisas incríveis que você encontra no Acre, por exemplo, mas como trazer o artesanato daquela região aqui para São Paulo? Nós tentamos fazer esse transporte, mas tudo depende do interesse do grupo também, porque não é fácil. Eu vou comprar, mas temos que trabalhar juntos para esse produto chegar. Dependendo do caso, podemos negociar essa questão da logística com alguma Central de Distribuição (CD) mais próxima do local, mas o único CD que consegue distribuir os produtos a nível Brasil é o de São Paulo. Nos outros, a gente não consegue. Assim, os produtos teriam que ficar em apenas algumas regiões mesmo. Mas, a gente trabalha caso a caso. Produto a produto.
Embalagem, nós temos o apoio. O código de barras não é mais um problema. A logística, nós trabalhamos junto com o produtor para ver qual é a melhor forma. Se nós temos fornecedores na região, tentamos ver qual é a transportadora que faz o trabalho. Temos produtos que vem de longas distâncias que chegam perfeitos aqui. Mas, talvez, para esse fornecedor ter um frete que seja interessante, temos que fazer um pedido maior. O tempo de entrega dele vai ser maior (não vai dar para entregar todo o mês), mas conseguimos garantir um fluxo das entregas.

E todos esses pontos acabam encarecendo os produtos?
Patrícia Luísa Santana: Sim, em alguns casos. O produto que vem aqui do interior de São Paulo chega para mim com um preço melhor, porque o transporte dele foi mais fácil, mas um produto que vem de uma região mais distante tem custos maiores. Muitas vezes as pessoas dizem: “Ah, eu vou na feira de Fortaleza e encontro essas mantas lá pela metade do preço.” A questão é que a pessoa sai de São Paulo, vai para Fortaleza e passa na feira para comprar a manta, só que ela não pagou nenhuma taxa de imposto e nenhuma taxa de logística para ter acesso ao produto. No Caras do Brasil você encontra o produto ali, na gôndola do supermercado da sua cidade.  Mas, para o produto chegar lá, houveram vários custos que inexistem ou não são repassados quando você compra numa feira. No caso do Pão de Açúcar, temos uma margem operacional que é mínima, que é utilizada para a manutenção do programa.

E como é definido o preço final do produto?
Patrícia Luísa Santana: O preço é definido pelo próprio artesão. Porém, há uma negociação, porque algumas peças veem com valores muito descontrolados. Para você ter uma ideia: uma vez nós conversamos com uma artesã que produzia peças de cestaria e ela cobrava um preço muito baixo pelos seus produtos. Ela demorava dois dias inteiros para fazer uma única peça e cobrava muito barato. Nós víamos que aquele valor não ia cobrir a mão de obra e as despesas com matéria prima. Se o programa trabalhasse apenas com uma lógica comercial, eu ia comprar a peça e deixar tudo do mesmo jeito. Entretanto, eu sei que aquilo não fecha a conta. Então eu não posso comprar, porque eu estou indo contra os princípios do programa.
Mas eu tenho outros grupos também que quando veem que é o Pão de Açúcar, já me colocam um preço completamente fora do mercado. E o que a gente faz? A gente compara com o mercado, através de similares. O que eu tenho de similares com relação a esse item? Vemos isso e negociamos o preço. Depois disso, a gente inclui os encargos, impostos e uma pequena margem operacional.

Como o Programa Caras do Brasil enxerga a relação entre design e artesanato?
Patrícia Luísa Santana: O design e o artesanato são áreas que devem andar juntas. Para nós, é muito importante relacionar a questão cultural e de raízes (típicas do artesanato) com o design, porque desse modo você consegue ter um produto diferenciado, que vai atender a demanda de um publico que é mais exigente. Então, é fundamental que exista esse olhar.
E no supermercado nós nos comunicamos com todos os públicos: temos aqueles que procuram uma peça diferenciada e aqueles que preferem algo mais tradicional. Assim, você pode chegar numa gôndola do Caras do Brasil e encontrar um produto que tenha essa questão do design trabalhada e que ao mesmo tempo traga o tradicionalismo ou a cultura de um determinado lugar.
Verônica Batista: O Caras do Brasil, na verdade, valoriza a comunidade, a história por trás daquele produto. Mas, o que vai fazer também com que a peça se torne um produto atraente ao consumidor é essa ligação com o design, com a criação e com a preocupação de ter um produto de qualidade para estar num ponto de venda como o Pão de Açúcar.
Dentro da área de alimentos temos alguns exemplos de grupos que reformularam o rótulo e que fizeram estudos para saber o que seria mais agradável ao consumidor.

Em termos de valores, quanto, em média, é revertido para as comunidades anualmente?
Patrícia Luísa Santana: Em 2013 compramos mais de 2 milhões de reais em artesanato. Todo este valor foi pago para os grupos.

Em 2012 vocês assinaram o “Acordo de Cooperação Técnica do Plano de Superação da Extrema Pobreza - Brasil sem Miséria”, do governo federal. Qual foi a importância da assinatura desse acordo para o programa? Quais foram os resultados já obtidos?
Patrícia Luísa Santana: Para a gente é de extrema importância ter esse acordo junto ao governo federal. O que a gente tem dentro desse acordo é um papel do governo de disponibilizar para o Caras do Brasil contatos de grupos que tenham produção de artesanato e de alimentos regionais. Hoje, a grande maioria de itens que eles acabam recomendando são alimentos, mas tem artesanato também. E o governo indica grupos já avaliados previamente, onde já ocorre uma seleção para saber se o perfil do grupo ou comunidade cabe dentro do Caras do Brasil. Em seguida, fazemos uma segunda avaliação para conhecer o grupo, verificar o produto e começar a comercialização.
Com esse acordo nós conseguimos aumentar o número de fornecedores e a proposta é que isso aumente ainda mais. Para nós é de extrema importância essa parceria e validação. A parceria com o governo nos trás grupos avaliados e, com isso, conseguimos aumentar o portfólio de fornecedores e de produtos.

A questão do preço do produto acaba sendo um ponto relevante nesse aspecto, dado que existem produtos artesanais que apresentam um valor elevado?
Patrícia Luísa Santana: Sim. Hoje em dia, produtos que sejam muitos caros não teriam espaço no programa. Não é tudo que é artesanato que cabe no Caras do Brasil. Você não vai ao supermercado comprar um descanso de panela e pagar 150 reais. A comparação dentro de um supermercado é diferente. Eu tenho panos de prato do programa vendidos a 15 reais, mas no mercado tem panos de prato industrializados que são vendidos a 2,99. Há uma concorrência desleal, mas se você reconhece a causa e a história daquele produto, você compra. Eu compro, porque eu sei de onde vem. Dessa forma, também devemos conscientizar o consumidor para que ele tenha um olhar diferenciado para os produtos que aparecem na gôndola do Caras do Brasil.

Tem algum teto para estipular o valor máximo do produto?
Patrícia Luísa Santana: Nós procuramos fazer esse tipo de avaliação, mas analisamos cada caso individualmente. Colocamos tudo o que cabe dentro do programa.
Verônica Batista: Hoje o que a gente tem de produto com valor mais alto é 45 reais.

Atualmente, muitas instituições e profissionais que trabalham com comunidades de artesãos relatam dificuldades na venda de produtos. No site de vocês diz: “por meio do Programa Caras do Brasil, o GPA deve suprir um dos principais problemas de organizações civis que possuem atividade produtiva, a comercialização”. O que ocorre? Por que a comercialização de produtos artesanais é difícil?
Patrícia Luísa Santana: O problema já começa pela questão do custo do artesanato. É a história do pano de prato que eu acabei de falar. As pessoas, de maneira geral, enxergam o artesanato como um produto mais caro. Não há um reconhecimento muito claro do valor desse produto. Nós, que trabalhamos na área, sabemos que o processo artesanal é uma coisa demorada: vai tempo, matéria-prima e mão de obra. Nós entendemos o custo daquele produto, mas o consumidor (normalmente) não é atento a essas questões. Ele não valoriza. Então, isso já é um dificultador.
Nas minhas viagens Brasil afora eu sempre trago algum artesanato de cada lugar. Esse hábito do artesanato já é uma coisa presente na minha família e eu sempre tento convencer os meus amigos a comprarem esse tipo de produto também. Mas o público, de maneira geral, não tem esse reconhecimento.
Assim, na minha opinião, as pessoas que comercializam artesanato precisam ter canais para trabalhar o assunto. A CASA e o ArteSol, por exemplo, são canais que estão sempre falando do artesanato e contribuem muito para isso. Desse modo, precisamos potencializar esses canais para que o artesanato seja divulgado e reconhecido. Tem muitos casos que a gente vê por aí de pessoas que produziam artesanato mas deixaram essa atividade e foram trabalhar com outras coisas. O que a gente quer fazer é o inverso disso. Queremos potencializar esse artesanato, trazer mais pessoas para esse mundo e, assim, falar mais sobre a nossa brasilidade.
Verônica Batista: Outro ponto também é que a velocidade com que o mercado trabalha hoje não é a mesma velocidade com que o artesanato funciona. Então, essa é uma das maiores dificuldades que nós temos encontrado hoje para a comercialização. Todos os outros fornecedores do GPA trabalham com um timing diferente; afinal, a capacidade produtiva de uma indústria não é a mesma de um grupo ou comunidade de artesãos. Isso é algo que faz parte da premissa do programa. É óbvio que um produto manualmente produzido não vai chegar na mesma velocidade que os outros.
Patrícia Luísa Santana: E nunca vai chegar. A gente nem quer, nem pode.
Verônica Batista: Exatamente, porque se isso acontecesse o artesanato perderia as suas características principais.

Em diversas comunidades de artesãos, os mais jovens já não têm tanto interesse em permanecer no seu local de origem e acabam se mudando para cidades maiores em busca de uma vida diferente. Avaliando as organizações que fazem parte do Caras do Brasil, vocês observam esse fenômeno?
Patrícia Luísa Santana: Nós observamos isso também, mas não de uma maneira tão forte. Na minha opinião, uma das principais causas para isso não ocorrer é garantir um canal de distribuição para os produtos. É necessário que o artesão tenha locais para vender os seus produtos. Então, se você tem uma produção que não consegue escoar, você não vai estimular o seu filho a continuar naquela atividade. Para que as pessoas tenham interesse em dar continuidade a produção artesanal, é necessário que haja uma perspectiva.

Como o mercado tem recebido os produtos nas lojas? O que é necessário para um produto fazer sucesso?
Patrícia Luísa Santana: De maneira geral, o mercado recebe bem o produto na loja, mas o que vemos, até por uma pesquisa que foi realizada, é que as pessoas não reconhecem o valor do objeto artesanal. Para os consumidores é mais uma gôndola, é mais um produto. Com os funcionários essa relação é diferente, porque nós chegamos nas lojas e explicamos a importância e relevância do programa. Mas o público, de forma geral, não tem muita ideia do valor que está agregado nos produtos do Caras do Brasil. Por isso que pretendemos trabalhar bastante essa questão da comunicação com o consumidor.
Verônica Batista: A comunicação é que trás o engajamento e o sucesso no futuro. A expansão depende muito disso. O programa se mantém, mas só conseguiremos uma boa recepção e expansão quando os consumidores compreenderem a história que está por trás de cada produto.

Quais são as principais dificuldades enfrentadas por vocês?
Patrícia Luísa Santana: Uma das dificuldades é encontrar um fornecedor que tenha um produto que possa ser comercializado dentro das lojas. Isso é um dificultador. Entretanto, a questão da comunicação é a nossa principal dificuldade na atualidade.
Além disso, também temos grandes desafios para esse ano de 2014: queremos estar presentes, se não em 100%, pelo menos em 95% das lojas do Pão de Açúcar. E para os próximos anos, queremos expandir o programa para outros formatos, com novos fornecedores. Precisamos urgentemente de novos fornecedores.
Verônica Batista: Exatamente. O mais importante é ter novos fornecedores para essa expansão. Queremos expandir os fornecedores, as lojas, mas mesmo assim vamos continuar mantendo as nossas premissas, que é o cuidado de fornecedor a fornecedor, como se tivéssemos um pequeno número de grupos. Pretendemos manter esse olhar único para todas as comunidades, para que as premissas possam ser preservadas e essa expansão aconteça de uma forma saudável.
Patrícia Luísa Santana: A nossa meta é a expansão do programa seguindo suas primícias iniciais, que se baseiam no respeito a capacidade produtiva, fixação das pessoas no local de origem, valorização das características regionais, repúdio a qualquer trabalho escravo ou infantil, promoção da inclusão social, entre outros. A nossa meta é expandir com novos grupos, atender novas comunidades, possuir mais produtos, atender mais lojas e ainda assim continuar desenvolvendo o relacionamento com cada fornecedor, com cada comunidade.



Autor:
Ivan Vieira
http://www.acasa.org.br/ensaio.php?id=493&modo=


segunda-feira, 17 de março de 2014

SUPER RIO EXPOFOOD 2014 - AproRio estará presente.

A Aprorio estará presente por meio do SEBRAE/RJ,  na Super Rio Expofood, um grandioso evento que reúne todos os anos milhares de empresários e profissionais dos setores de Supermercado, Panificação, Hotelaria, Franchising, Conveniência e Restaurante. Todos dispostos a estreitar laços e fechar ótimos negócios neste evento que transforma marketing de relacionamento em parceria comercial, gerando muitos frutos durante todo o ano.
 
 

Balanço Super Rio Expofood 2013
Com o tema: "VAREJO SUSTENTÁVEL", a 25ª Super Rio Expofood apresentou
resultados acima das expectativas. De acordo com o presidente da Associação
dos Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (ASSERJ), Aylton Fornari,
O volume de negócios movimentados neste evento superou em 15% a edição
anterior, com aumento de 10% na visitação com relação a este mesmo período.
 

sexta-feira, 14 de março de 2014

quinta-feira, 6 de março de 2014